Saloon – Conto de Sérgio Faraco

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Para tratar de assuntos da sinuca fui apresentado por amigo comum ao escritor rio-grandense-do-sul Sergio Faraco, também praticante do esporte, à mim resultando em grata amizade e feliz parceria no lançamento do livro “Snooker: tudo sobre a sinuca”, publicado em 2005 pela L&PM, hoje esgotado em sua segunda edição. Nesse livro o Faraco concordou em incluir seu conto “Saloon”, originalmente publicado no seu livro “Contos Completos”, Porto Alegre, L&PM, 2004. Admirador do famoso escritor e das suas dezenas de obras – listadas em http://www.sergiofaraco.com.br/ -, tenho especial apreço por esse conto, a seguir reproduzido com autorização do autor, por retratar de forma agradável e simpática uma era polêmica, quase romântica e geralmente “mal vista”, vivida pelos adeptos da sinuca. Esse conto foi dedicado ao amigo que nos apresentou, também gaúcho e praticante do esporte, Homero Magajevski.

SALUN
De Sergio Faraco
Para Homero Magajevski

– Bola quatro ao meio – disse o velho.

Um homem entrava no bar e parou, ficou olhando. A bola bateu no bico da caçapa, não caiu e o velho se queixou:

– Não é meu dia.

O recém-chegado sentou-se a uma mesinha de canto e chamou o garçom. Era moço ainda, moreno-claro, traços indiáticos. Vestia calça de brim azul, tênis e um colete preto sobre a camisa branca, arremangada. Trazia a barba por fazer e presos os longos cabelos pretos numa fita que, desde muitas luas, não gozava dos benefícios da água.

O garçom trouxe a bebida, o homem observava o jogo, em que se enfrentavam um mulato retaco e o velho de tez azeitonada que perdera a bola quatro. O mulato dava vantagem e vencia. Era bom jogador, ao passo que o velho, sobre aparentar nervosismo, era aquilo que, nas rodas de sinuca, chamam pangaré.

A certa altura, qualquer aficionado teria percebido que o mulato, deliberadamente, começou a jogar mal. Derrotado, propôs dobrar a parada. E logo tornou a ganhar. Teria percebido também, pelo diálogo dos olhos, que três ou quatro indivíduos à volta da mesa eram comparsas do ganhador.

Mais de hora se passava quando o velho, errando uma bola seis que o outro lhe facilitara, desanimou e sentou-se, cabisbaixo, taco entre os joelhos. O mulato, quase irritado com tanta ruindade, matou a bola cor-de-rosa com um tiro seco ao meio e fechou a partida com duas pretas na mesma caçapa, ao fundo.

– Venha – exigiu, fazendo sinal com os dedos.

– Tá na caçapa.

– Não tá, não. Venha.

O homem do rabo-de-cavalo olhava placidamente para o velho, decerto também vira que nenhuma cédula fora colocada na caçapa, como até então vinham fazendo e é o que se impõe num jogo a valer. A aposta, ainda que dobrada, era irrisória, mas o velho meneava a cabeça e não dizia nada. O mulato agarrou-o pelo braço, sacudindo-o, e a resposta veio num fio de voz:

– Perdi tudo…

– Até a vergonha – rosnou o mulato.

E aplicou-lhe um joelhaço na coxa.

– Calma, Gorila – disse o dono do bar, atrás do balcão.

O velho, mancando, foi guardar o taco na taqueira, e o garçom, que ouvira a conversa, foi atrás.

– A despesa, amizade.

– Amanhã eu…

– Amanhã? Tá sonhando? Amanhã é pó de traque – e mostrou-lhe um papel com uns rabiscos.

Antes que o velho dissesse qualquer coisa, o homem do rabo-de-cavalo estalou os dedos e indicou o próprio peito.

– Deus é grande – disse o garçom -, o prejuízo mudou de bolso.

O velho olhou em torno, como querendo identificar seu benfeitor, e rapidamente se retirou. Gorila e seus amigos se olharam.

– Bonito gesto – disse Gorila, arrastando uma cadeira para a mesa do desconhecido. – Me acompanha numa cervejinha?

– Não bebo.

O mulato pegou o copo e provou:

– Arre! Guaraná! É promessa?

– Questão de gosto.

O garçom esperava. O homem desembolsou uma carteira estofada, que todos viram, mas ao abri-la protegeu-a com o corpo. Pagou a conta do velho e o guaraná.

– Valeu, comandante – disse o garçom.

-Traz uma, Alemão – disse Gorila. – Tô simpatizando contigo, cabeludo. Não vai me dizer que também faz rolar uma bolinha…

– Às vezes.

– Olha aí, gente, o cabeludo diz que rola uma bolinha às vezes. A modéstia dele! Garanto que é um campeão!

A parceria achou graça.

– Dos bons, quem tu já viu jogar? O Boneco? O Tuzinho? – tornou, obtendo como resposta um gesto vago. – Confessa, cabeludo, tu é do ramo – e deu-lhe um tapinha nas costas.

O homem retesou-se, o mulato não percebeu e continuou:

– Já te vi em algum lugar. No Check-Point? No Julius?

– Pode ser – disse o outro, levantando-se.

– Ué, já vai? – e o mulato abriu os braços, como condoído. – E vai assim, sem fazer pra galera uma demonstração da tua catega?

– Uma partida só eu posso jogar, se faz questão.

– Uma só? Que egoísmo, cabeludo! Vá lá, uma só, pra refrescar o saco – e foi colocar as bolas em seus pontos.

O homem escolheu um taco na taqueira. Antes de sortearem a saída, Gorila espalmou a mão no pano.

– Vale uma cervejinha? Pra ter graça.

– Pra ter graça, uma cervejinha é pouco.

– Ora, ora, ora – riu-se Gorila, e com um gesto de quem se rende estipulou um valor maior. – Tá bom assim?

– Mixaria.

O sorriso apagou-se no rosto do mulato e entre ele e os comparsas houve uma troca de olhares que, por certo, valia muitas frases.

– Quanto te agrada?

O outro quintuplicou a aposta e repetiu: “Pra ter graça”.

– Numa partida só? Que é isso, cabeludo? Olha que eu te conheço, eu sinto que te conheço!

E sentou-se. Encostado na mesa, o homem o olhava, impassível.

– Olha o índio tripudiando – disse um dos comparsas.

– Eu conheço esse cara… Porra, cabeludo, eu te conheço!

O homem pôs-se a taquear sem direção, contra as tabelas.

– Alguém mais quer jogar? Uma partida só e dou 7 pontos.

– Pra mim também? – quis saber o Gorila, num tom de quem se exclui.

– Não. Pra ti… te dou 10.

– O índio é galo – disse um baixinho de boné virado, que bebia debruçado no balcão.

Gorila levantou-se, pálido.

– Olha aqui, figurinha…

– Devagar, Gorila – advertiu o dono do bar, com impaciência.

– Devagar? O cara tá querendo me humilhar!

– Tá com medo, Gorila? – de novo o baixinho.

– Medo? Eu? Não viram o que eu fiz com aquele velho de merda, que também cantou de galo? Saiu depenado. Eu tenho história, tá sabendo? Arruma as bolas!

– Arruma tu – disse o homem.

Houve um momento de indecisão, mas o garçom, solicitamente, fez com que as bolas tornassem aos seus pontos. Sorteada a saída, esta tocou para o mulato. Ambos colocaram as cédulas na caçapa do meio e as do Gorila, amarrotadas, eram aquelas que ganhara do velho e muitas outras que teve de juntar.

– Mas que te conheço, te conheço – resmungou, enquanto passava giz no taco. – Como é teu nome?

– Nome não vale ponto – disse o outro, sem olhá-lo.

– Essa eu quero ver – disse o dono do bar.

Gorila deu a saída, deixando a bola vermelha encostada na tabela oposta, ao fundo, e a bola branca quase atrás da sete. A vermelha não estava descoberta e ouviu-se um zunzum quando o homem, ao invés de optar por nova saída, cantou sua jogada:

– Bola seis ao meio.

A bola cor-de-rosa caiu limpa na caçapa onde estava o dinheiro, e a branca, seguindo em frente, roçou na tabela lateral e, passando por trás da amarela, foi repicar na vermelha, desencostando-a da tabela do fundo.

– Puta que o pariu! – murmurou o baixinho.

– Bola ás ao fundo – disse o homem.

Encaçapou a vermelha, duas vezes a marrom, encaçapou a amarela, outras duas vezes a marrom, encaçapou a verde e logo a marrom mais duas vezes. Com uma puxeta levou a bola branca para o meio da mesa e ali, depois de um tiro seco na bola azul, preparava-se para jogá-la novamente quando Gorila praguejou. O homem ergueu-se, passou giz no taco, mas não disse nada. Deu outro tiro seco na bola azul, fazendo com que a branca retrocedesse e, dando na tabela, rodasse vagarosamente até a vizinhança da cor-de-rosa. Não era preciso jogá-la. Partida encerrada.

Gorila, que acompanhara as últimas manobras da bola branca sentado entre os amigos, encostou o taco na parede e ergueu-se.

– Tu não presta, cabeludo, teu lugar não é aqui. Aqui só tem gente honesta e tu é gatuno.

O outro fez que não ouviu e pegou o dinheiro na caçapa. Gorila se aproximava, com dois de seus parceiros.

– Ah, não vai levar.

Mais um passo e viu uma faca encostada em seu umbigo.

– Quieto – disse o homem. – Não quero te machucar.

– Ô Gorila, ele ganhou na lei do jogo – era o dono do bar.

O mulato respirava forte, olhando para a faca, os parceiros imóveis, atrás dele. Em meio ao inusitado silêncio do bar, ouviram-se pela primeira vez os ruídos da cozinha.

– Agora vou sair – disse o homem, calmamente. – Não quero furar ninguém, certo? Mas se tiver que furar, eu furo.

Recuou dois passos e, sem descuidar-se do mulato, encaminhou-se para a porta. Na calçada, guardou a faca sob o colete e olhou para trás. Não vinha ninguém e ele apurou o passo. Dobrou a esquina e, no meio da quadra, entrou numa lanchonete. O velho de tez azeitonada estava sentado ao balcão.

– Pai.

O velho voltou-se.

– E aí? Deu certo?

O homem meteu o maço de cédulas no bolso do velho.

– Hoje deu.

– Isso é o que vale. Vamos comer uma pizza.

– E aquele joelhaço?

– Tá doendo um pouco. Foda-se.

Sérgio Faraco

Livros “Contos Completos”, Porto Alegre, L&PM, 2004, e “Snooker: tudo sobre a sinuca”, L&PM, 2005.

Sergio Faraco nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1940. Nos anos 1963-5 viveu na União Soviética, tendo cursado o Instituto Internacional de Ciências Sociais, em Moscou. Mais tarde, no Brasil, bacharelou-se em Direito.

Em 1968 publicou seus primeiros contos no Caderno de Sábado do Correio do Povo. Em 1988, seu livro A Dama do Bar Nevada obteve o Prêmio Galeão Coutinho, conferido pela União Brasileira de Escritores ao melhor volume de contos lançado no Brasil no ano anterior. Seguiram-se incontáveis obras, prêmios e distinções especiais, nacionais e internacionais.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP
2015

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