O médico biólogo cientista brasileiro Alysson Renato Muotri desenvolve técnicas para criar minicérebros em laboratório.
É professor e pesquisador na Universidade da Califórnia em San Diego – UCSD, onde lidera o Muotri Lab.
Alysson é conhecido por criar organoides cerebrais – minicérebros – a partir de células-tronco, que replicam o cérebro humano em seus estágios iniciais de formação.
Esses minicérebros são usados para estudar doenças neurodegenerativas, como Parkinson e transtornos do desenvolvimento, como o autismo e síndromes relacionadas.
- Alysson Renato Muotri tem um filho chamado Ivan, autista nível 3, que tem comorbidades associadas à condição. Esse diagnóstico foi uma das principais motivações para Muotri se aprofundar na neurociência e buscar respostas para o desenvolvimento cerebral humano.
- O cientista tem se dedicado a estudar e desenvolver minicérebros em laboratório, utilizando células-tronco, para investigar doenças neurodegenerativas e transtornos do desenvolvimento, como o autismo.
O CIENTISTA
Alysson Renato Muotri é professor e pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego – UCSD, nos Estados Unidos, onde trabalha desde 2008. É também diretor do Programa de Células-Tronco da UCSD.
Seu trabalho aborda temas da fronteira da genética e neurociência, como o desenvolvimento de etapas iniciais do sistema nervoso humano usando organoides cerebrais – minicérebros – derivados de células-tronco.
É biólogo brasileiro com maior número de publicações científicas de alto-impacto da atualidade.
BIOGRAFIA
De ascendência italiana, Muotri é formado em ciências biológicas pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, com doutorado em biologia genética pela Universidade de São Paulo – USP.
Tem experiência na área de genética, com ênfase em genética humana e médica, atuando principalmente nos seguintes temas: reparo de DNA, vetores virais, câncer, autismo, terapia gênica e modulação gênica.
Foi um dos primeiros pesquisadores a cultivar células-tronco embrionárias.
Desde o início da sua vida acadêmica Muotri mantinha interesse em estudar neurociência. A leitura de artigos científicos o levou a conhecer as pesquisas realizadas no Instituto Salk, em especial a linha de atuação do Dr. Fred Gage, que une células-tronco com o desenvolvimento de novas redes neurais.
Em 2005, durante seu pós-doutoramento, no Instituto Salk de pesquisa, em San Diego, Califórnia, Muotri foi pioneiro em mostrar que neurônios humanos derivados de células-tronco embrionárias eram capazes de se diferenciar e se integrar funcionalmente em cérebros de animais quiméricos, formados por células de duas espécies diferentes.
Ainda em 2005, num sofisticado trabalho de neuro genética, revelou a atividade de “genes saltadores” – elementos L1 retro transponíveis – em genomas neurais, mostrando que o cérebro é composto por mosaico de genomas neuronais.
A pesquisa alterou o então dogma da biologia, que sugeria que todas as células do corpo dividiam o mesmo genoma.
Usando a reprogramação celular em laboratório – em 2010 desenvolvida pelo prêmio Nobel Shinya Yamanaka – conseguiu reverter alterações morfológicas e funcionais em neurônios derivados de indivíduos com autismo, abrindo perspectivas para o desenvolvimento de drogas mais eficientes para o Transtorno do Espectro do Autismo.
Em fevereiro de 2014, em coautoria com o médico Adelson Alves,,lançou o livro “Simples assim: células tronco”, pela editora Atheneu, com capa ilustrada pelo cartunista Ziraldo.
Em abril de 2016, junto com outros cientistas Muotri fundou a Tismoo, primeira startup do mundo da medicina personalizada voltada ao autismo e síndromes relacionadas, com sede em São Paulo e dois escritórios nos Estados Unidos, em San Diego e Miami.
Ainda em 2016 criou modelo celular para estudo da Síndrome de Williams, abrindo a possibilidade de investigação das bases celulares e moleculares do cérebro social humano.
Também em 2016, junto com colaboradores internacionais, Muotri liderou estudo mostrando a relação causal do vírus da Zika, circulando no Brasil, com casos de microcefalia e defeitos congênitos.
Em maio de 2016, a Tismoo foi a primeira startup a publicar trabalho na Nature, tendo sua pesquisa reconhecida em uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo.
Em dezembro de 2016 lançou o livro espiral “Conversas Científicas do Século XXI”, pela editora Atheneu, coletânea com mais de duzentos artigos publicados no decorrer de dez anos em que foi colunista do G1.
Em dezembro de 2017, em experimento com minicérebros o pesquisador brasileiro descobriu que um medicamento usado há 60 anos contra a malária, a cloroquina, funciona como vacina contra o Zika.
Em 2018 desenvolveu “minicérebros neandertais”, possibilitando a criação de uma nova área da ciência, a “neuro arqueologia”. O trabalho é sobre o Zika vírus e sua relação com o alto índice de microcefalia no Brasil. Por meio de sua tecnologia de minicérebros, a startup brasileira ajudou a demonstrar a relação entre a versão brasileira do vírus e como ele atua causando malformação do córtex e levando a essa condição neurológica.
Na sequência, em estudo publicado em janeiro de 2018 na revista Scientific Reports, do prestigioso grupo Nature, também com uso dos minicérebros, a equipe de Muotri afirma que o remédio Sofosbuvir, usado no tratamento de hepatite C, pode curar a infecção por Zika, além de impedir também a transmissão do vírus da mãe para o bebê durante a gravidez.
- Em 25 de julho de 2019, numa cápsula da SpaceX Muotri enviou para a Estação Espacial Internacional – ISS – uma caixa autônoma com dezenas de minicérebros, que ficaram no espaço por um mês.
- A pesquisa objetivava verificar a reação dos organoides em microgravidade, para pesquisas com autismo, Doença de Alzheimer e outras condições neurológicas.
- Em 6 de dezembro de 2020 enviou para a ISS a segunda parte desta pesquisa.
Em estudo publicado em 8 de dezembro de 2020, na revista científica EMBO Molecular Medicine, Muotri e sua equipe identificaram dois medicamentos candidatos a neutralizarem os déficits causados pela falta do gene MECP2, causador da Síndrome de Rett, com testes em laboratório feitos em minicérebros humanos, na Universidade da Califórnia em San Diego, EUA.
Foram utilizados dois medicamentos que podem iniciar testes clínicos na fase três. Já foram aprovados nas fases 1 e 2, demonstrando serem seguros para o consumo humano.
Os minicérebros “tratados” no laboratório de Muotri passaram a se comportar como se não tivessem a Síndrome de Rett.
- Em 2023, na condição de cientista, teve seu nome indicado para integrar missão à Estação Espacial Internacional – ISS, originalmente prevista para novembro de 2024, com o objetivo de pesquisar os organoides cerebrais.
- Em maio de 2024 foi anunciado que o lançamento havia sido adiado para final de 2025, a bordo de um foguete Falcon 9 da SpaceX, que o levará à Estação Espacial Internacional – ISS.
- Financiado pela Universidade da Califórnia, Muotri também selecionará experimentos de cientistas brasileiros para levar em seu voo. O programa prevê estada de 10 dias no espaço.
- Afirmam que Muotri vem alternando suas pesquisas com treinamentos necessários, similar aos dos astronautas.
Muotri revelou que existe interesse do Canadá e da Coreia do Sul em investir na missão. Não está claro se o governo brasileiro terá algum envolvimento. A biomédica Livia Luz, pesquisadora em seu laboratório, deverá ser treinada como sua suplente.
CONTROVÉRSIAS
Em alguns contextos Muotri chegou a ser considerado figura polêmica no cenário do autismo.
Alguns autistas ativistas do “movimento de direitos dos autistas” discordam de suas afirmações sobre cura do autismo, e como aborda o transtorno em seus pronunciamentos públicos.
Numa entrevista para o G1, em 2013, Alysson foi perguntado;
- “Não raro, você enfrenta críticas relativas ao seu trabalho. Já vi pessoas usando termos pejorativos com o objetivo de denegrir sua imagem, e fazendo pouco caso de todo o conhecimento acumulado. E mais que isso: não só acumulado, mas também compartilhado de forma acessível. Por que não desiste?”
- Muotri respondeu: “Não desisto, porque esse tipo de crítica não me incomoda. Não são esses críticos que pagam meu salário. Quem paga, pensa justamente o oposto. Se algum dia essa situação inverter, acho que desistiria da ciência e me transformaria numa pseudocelebridades de segunda classe”.
NO ESPAÇO CÓSMICO
EFEITOS NO CORPO HUMANO
EM LONGAS PERMANÊNCIAS NO ESPAÇO
Os astronautas que permanecem no espaço por longos períodos enfrentam vários desafios físicos e psicológicos, em razão da microgravidade e da exposição à radiações cósmicas.
Radiação Espacial – No espaço os astronautas são expostos a níveis mais altos que na Terra, de radiação solar e radiação cósmica, que podem aumentar o risco de câncer e doenças degenerativas, inclusive alterações genéticas.
Alterações no Sistema Imunológico – A microgravidade pode afetar a resposta imunológica, tornando os astronautas mais suscetíveis a infecções.
Problemas Cardiovasculares – A falta de gravidade pode causar alterações na circulação sanguínea e no coração, aumentando o risco de problemas cardiovasculares.
Atrofia Muscular e Perda Óssea – A ausência de gravidade faz com que os músculos e ossos se atrofiem e enfraqueçam, em razão da intensa redução na necessidade de sustentação corporal.
Alterações na Visão – A microgravidade pode causar alterações na visão dos astronautas, problema de saúde que os cientistas ainda tentam resolver.
Retenção de Fluidos – A microgravidade causa a retenção de fluidos, podendo aumentar o risco de pedras nos rins.
Isolamento e Confinamento – Problemas Psicológicos – O isolamento pode afetar o descanso, a motivação e levar a distúrbios comportamentais ou cognitivos.
NO ESPAÇO CÓSMICO
EFEITOS NO DESENVOLVIMENTO E
ENVELHECIMENTO DOS MINICÉREBROS EM MICROGRAVIDADE
Os experimentos planejados pelo Dr. Alysson Muotri com minicérebros na Estação Espacial Internacional – ISS, terão como objetivo estudar o desenvolvimento e envelhecimento acelerado dessas estruturas em microgravidade.
RESULTADOS ESPERADOS NAS EXPERIÊNCIAS
Aceleração do Desenvolvimento – No espaço, os minicérebros amadurecem mais rapidamente que na Terra, permitindo que os cientistas observem processos que levariam muito mais tempo em condições normais.
Menor Proliferação Celular – As células dos minicérebros se replicam menos no espaço, mas amadurecem mais rapidamente.
Estudo de Doenças Neurodegenerativas – A microgravidade pode ajudar a simular o desenvolvimento de doenças como Parkinson e Alzheimer, permitindo análises mais rápidas de como essas condições afetam o cérebro humano e a busca por tratamentos mais eficazes.
Redução do Estresse Celular – As células expostas à microgravidade demonstraram maturação mais acelerada e menor taxa de replicação celular, além de níveis reduzidos de estresse e inflamação.
Modelagem de Doenças e Desenvolvimento de Medicamentos – A ISS oferece plataforma única para estudar os efeitos da microgravidade em células humanas, com implicações para pesquisas de saúde na Terra e desenvolvimento de novos medicamentos.
- Esses experimentos têm potencial de revolucionar a compreensão do desenvolvimento cerebral e das doenças neurodegenerativas, além de abrir novas possibilidades para a medicina regenerativa e a inteligência artificial.
ALYSSON RENATO MUOTRI – CIENTISTA BRASILEIRO
OBRAS
- “Simples assim: células tronco” – Editora Atheneu, 2014.
- “Conversas Científicas do Século XXI” – Editora Atheneu, 2016.
PRÊMIOS
- 2002: Pew Latin America Postdoctoral Fellowship, La Jolla, CA
- 2009: NIH Director’s New Innovator Award
- 2011: PopTech Science and Public Leadership Fellow
- 2013: EUREKA (Exceptional, Unconventional Research Enabling Knowledge Acceleration) NIMH Award
- 2014: NARSAD Independent Investigator Award
Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP
09/03/2025